quarta-feira, 31 de maio de 2017

Bonecada também é arte!


Peter Saul, Ice Box 8, 1963,
Oil on canvas, 190 x 160 cm / 74,8 x 63 inches, 
Hall Collection, © Peter Saul, Courtesy Hall Art
Foundation, Photo: Jeffrey Nintzel


Peter Saul @ Schirn Kunsthalle Frankfurt


The powers that be who dominates the Portuguese indigenous art scene hate anything and anyone near hard drawing and hard-core figuration. The bureaucrats follow this idiotic trend and finance it with public money. Let's trash these pretentious apparatchiks!

Estou disposto a dirigir um pequeno museu de bonecada, para acabar de vez com o 'liricoidismo' indígena. Um museu de género, crítico, às vezes mesmo, sórdido, onde não falte a mãozinha, o saber fazer e o humor. Programa do futuro museu da bonecada de Lisboa (o desejo é livre):

Alice Geirinhas
Alvarez
António Olaio
Artur Varela
Daniela Viçoso
Eduardo Batarda (do período inglês)
gémeos Carvalho
Joana Vasconcelos
João Fonte Santa
Jorge Barradas
Jorge Castanho
José Carvalho
Júlio
Manuel João Vieira
Mimi
Gonçalo Pena
Palolo
Paula Rego
Pedro Amaral
Pedro Proença
Pedro Zamith
Rafael Bordalo Pinheiro
René Bertholo
Sebastião Resende
Susanne Themlitz

e ainda...

Alfre Leslie
Alice Lex-Nerlinger
Carl Grossberg
Chitra Ganesh
Chris­tian Schad
Conrad Felixmüller
David Hockney
Dodo
Edvard Munch
Egon Schiele
Elfriede Lohse-Wächtler
Emil Nolde
Ernst Ludwig Kirchner
Francis Bacon
Franz Radzi­will
Franz von Stuck
Frida Kahlo
Georg Scholz
George Grosz
Jörg Immendorff
Keith Haring
Kenny Scharf
Hans and Lea Grundig
James Ensor
Jeanne Mammen
Karl Hubbuch
Käthe Kollwitz
Leon Golub
Lotte Laser­stein
Lucian Freud
Max Beckmann
Miza Coplin
Oskar Nerlinger
Otto Dix
Paul Delvaux
Peter Saul
Philip Guston
Pierre Klossowsky
René Magritte
Richard Ziegler
Robert Crumb
Robert Williams
Rudolf Schlichter
Tim Behrens
etc.

E agora ...

Peter Saul, Rich Dog, 1963,
Oil on canvas, 149 x 150 cm / 58,7 x 59 inches,
Hall Collection, © Peter Saul, Courtesy Hall Art Foundation,
Photo: Jeffrey Nintzel

PETER SAUL
JUNE 2 – SEPTEMBER 3, 2017

From June 2 to September 3, 2017 the Schirn Kunsthalle Frankfurt is presenting an extensive survey exhibition of the work of the American painter Peter Saul (*1934 in San Francisco, California).

Long before “Bad Painting” became a central concern in contemporary art, Peter Saul deliberately offended good taste. Beginning in the late 1950s he developed his highly individual idiom blending Pop Art, Surrealism, Abstract Expressionism, Chicago Imagism, San Francisco Funk, and cartoon culture, one in which he managed to address complex political and social issues. Saul shares with Pop Art an interest in the commonplace, in consumer society, and the cheerful pictorial worlds of the comics in glowing, appealing colors. Yet his work is also associated with the aesthetic strategies of the California counterculture. He produces an almost irate kind of painting when depicting the darker sides of the American Dream. In it he combines exuberant humor and playful but harsh criticism of the system. He makes use of jokes, slapstick, puns, comedy, and persiflage, and often crude humor in his caricature-like attacks on American high culture. Apart from the major artistic schools, Saul developed an extremely idiosyncratic oeuvre. Never really associated with any group or movement, he has been painting in his own way despite changing artistic fashions for more than fifty years. Saul’s paintings tell stories, tend toward exaggeration, and resist unambiguous interpretation. The Schirn has brought together roughly sixty works by this hitherto little noticed “artists’ artist,” among them groundbreaking groups of works like his Ice Box Paintings, his comics narrations and Vietnam paintings from the 1950s and 1960s, as well as never exhibited drawings and selected late works from the 1980s to the 2000s.

This exhibition is made possible through support from the Terra Foundation for American Art.

Peter Saul, San Quentin # 1 (Angela Davis at San Quentin), 1971,
Oil on canvas, 180,3 x 238,8 cm / 71 x 94 inches,
© Peter Saul, Collection of KAWS


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Atualizado em 1/6/2017 10:13 WET

domingo, 28 de maio de 2017

MAAT Conference on Post-Internet Cities




I met a few wonderful people at MAAT’s Post-Internet Cities, namely Nashin Mahtani, Morten Søndergaard, Andrea Baldini, Alice Bucknell, Marisa Olson and Giselle Beiguelman. I was also curious about the work by IOCOSE Collective, after listening to Matteo Cremonesi presentation. I had the feeling that if I have had the opportunity to listen to Linda Aloysius‘s complete wanderings on “Art: Women’s Dirty Work in the Digital Age”, another impression would last. Funny and very MIT was AI and ML approach by intelligent design post-graduate students Stephanie Cedeño, Xiaoxuan (Sally) Liu, Godiva Veliganilao Reisenbichler, Nicci Yin.

The only question (rephrased) I addressed the conference:

What are the differences between technology and nature from the point of view of today’s children, and what differences will they make to future art practices?

segunda-feira, 3 de abril de 2017

O fim da democracia

Manuel Casimiro. A Cidade. Serigrafia, 1972

Imaginação crítica e salvação


Nesta peça de Manuel Casimiro, de 1972 —curiosamente o mesmo ano em que Donella H. Meadows, Dennis L. Meadows, Jørgen Randers, e William W. Behrens III publicaram The Limits to Growth, e um ano antes da primeira grande crise petrolífera mundial— a metrópole moderna surge simbolicamente descrita como uma arquitetura e uma ideologia consumistas: cada arranha-céus é, nesta representação, uma embalagem do cabaz de compras típico de uma sociedade de consumo.

A intuição crítica do artista não poderia ter sido mais certeira, pois ocorreu naquele já longínquo ano de 1972 o fim da explosão económica que esteve na origem da ilusão do crescimento e da prosperidade perpétuas. A taxa de crescimento demográfico mundial atingira o pico em 1962. Metade das melhores reservas de petróleo americano (o puro e barato sweet crude oil) tinham já sido consumidas em 1970, pelo que seria a partir daquela data necessário poupar o petróleo remanescente e procurar satisfazer as futuras necessidades da voraz economia americana noutras paragens: Canadá, Irão, Iraque, Arábia Saudita, Líbia, Venezuela, Angola, etc. A primeria grande crise do petróleo ocorreria em 1973.

Recall from chapter 15 the four domains that I argued are the sources of deep satisfactions: family, vocation, community, and faith. In each of those domains, responsibility for the desired outcome is inseparable from the satisfaction. 
— in Charles Murray, Coming Apart.

Acabei de ler um livro de Charles Murray, publicado em 2012 sob o título Coming Apart—The State of White America, 1960-2010, onde se demonstra como o início do fim do Sonho Americano se fez acompanhar pelo declínio imparável das tão proclamadas quanto excecionais virtudes fundadoras da América: IndustriousnessHonestyMarriageReligiosity. Este declínio atingiu sobretudo o que o autor chama new lower class, por oposição à new upper class, onde tais virtudes declinaram menos ou se mantiveram. Hoje existe uma elite económica, financeira e cultural que é sobretudo uma elite cognitiva, que se reproduz nos campus das grandes universidades e se aglomera em manchas urbanas e suburbanas muito bem delimitadas e homogéneas. Murray chama as estas manchas geográficas de poder económico, social e cultural, SuperZips. No extremo oporto desta novidade sociológica cresce a indigência económica, social e cultural, a uma velocidade tal que ameaça hoje claramente a estabilidade política da América. O populismo, de que Trump é o mais recente epifenómeno, é a face negra de uma moeda a caminho de uma desvalorização radical.

Quer na América, quer na Europa, este fenómeno alastra e põe em causa a nossa ideia de sociedade justa, e de democracia. Quem não viu até agora o perigo aproximar-se pertence, em geral, aos 1% dessa nova elite cognitiva protegida no interior de bolhas culturais que, mais cedo ou mais tarde, poderão implodir sob a pressão da mole hostil em que as maiorias democráticas se transformaram—deixando de se rever nas instituições políticas tradicionais e na dicotomia feliz esquerda/direita, que percebem como imprestáveis quimeras ou, pior ainda, como origens do mal.

Será que os artistas e os filósofos bem sucedidos serão ainda capazes de promover uma criatividade inclusiva? E se não forem, que poderemos esperar do resto da elite cognitiva: gestores, empresários, economistas, médicos, advogados, biólogos, engenheiros informáticos, funcionários públicos de topo, deputados, produtores, realizadores, atores e atrizes de teatro, cinema e televisão, jornalistas, etc?

Seria trágico continuarmos a meter a cabeça na areia, ou andar de óculos escuros pela vida que se deteriora à nossa volta. Ignorar a doença social que se vai transformando numa pandemia não a extingue. Pelo contrário, permite que se torne cada vez mais incurável e letal.