sexta-feira, 20 de julho de 2012

The syndrome of Alfred Leslie

Who's Alfred Leslie? 
by ANTÓNIO CERVEIRA PINTO


Alfred Leslie (b.1929) and Robert Frank (b.1924)
Pull My Daisy, 28 min., 16mm (1959)
Made with writers Jack Kerouac and Allen Ginsberg. Pull My Daisy is a 1959 short film, a classic look at the soul of the beat generation. It starred Allen Ginsberg, Gregory Corso, Larry Rivers, Peter Orlovsky, David Amram, Richard Bellamy, Alice Neel, Sally Gross and Pablo, Frank's then-infant son. Pull My Daisy is recognized as one of the most important works of avant-garde cinema — in Virtual Circuit.

Back in 1989, I drew and painted several red sentences on paper that I named propositional images. One of these sentences says The syndrome of Alfred Leslie. These propositional images are either enigmatic, nasty or funny. A few weeks ago, a potential buyer of these drawing paintings asked me what the meaning of "the syndrome of Alfred Leslie was". I was speechless because I couldn't remember any more why I did compose that sentence!

Now I remember: Alfred Leslie is a living American artist almost unknown in the art world. However, he has been a crucial presence at the core of such cultural moments in America as abstract expressionism, the beat generation and even pop art. His biography says, “born in the Bronx, New York, on October 20, 1927, multidisciplinary artist Alfred Leslie gained notice in the postwar period on the strength of his early abstract paintings, later figurative works, and independent films. An outgoing personality with close ties to Abstract Expressionist artists, Leslie turned his studio into a lively gathering place for New York’s avant-garde.”

Alfred Leslie. Telephone Call, 1971
Alfred Leslie.The Accident,1969-70
From abstraction to urban and almost photo-realism, from beat to pop. Alfred Leslie's longevity has not been enough to give him the front pages in art exhibitions and magazines as he surely deserves from at least a historical point of view. What is missing? Some explain this odd situation as being behind the curve. I prefer to call it the Alfred Leslie syndrome.

Alfred Leslie. Casey Key, 1976
Alfred Leslie. Brenna Gordon, 1976
Alfred Leslie. Laura Apastalou, 1976

Alfred Leslie | Wikipedia | Sotheby's |  Bruce Silverstein Gallery

domingo, 8 de julho de 2012

Single coin



Mining gold in Indonesia. The value of gold measures its unique qualities, its rarity and above all the amount of work needed to get it! Photo © unknown

Is there anything beyond reality? Well, yes: death!
by ANTÓNIO CERVEIRA PINTO


Title: Single coin
Head: a gold coin with my mother’s image and an algorithm.
Deck: art and money were born the same year — speculation on a single coin.
Lead: art and money have found themselves in the same deadlock. So if we want to save money we have to save art as well, and the other way around: if we want to save art we have to imagine a new protocol for love and for value exchange too. Accumulation has always been a menace for societies, and the thin air of debt is even worse. We happen to be already inside a new cave — kind of a run-out of fuel spaceship. Big time for smart guys and for the artists too!

What does valuable money mean? Trust! How can we rebuild trust once we have jeopardised it on bad bets? Can we do it without a deep symbolic reconstruction of the Self? Can we accomplish that necessary reconstruction without coming up with a new image, and a new narrative about fair exchange and love?

Let’s begin with a new memory tale about genes, motherhood and Gaia, and for this purpose let us discuss technology, what we know about knowledge, conscience and reality.

Cognitive art is something new. It means that post-contemporary artists either need a substantial body of logic knowledge, and proficiency in more than one formal language, be it a classical discipline of Academia (Physics, Mathematics, Biology, History, and so on) or some sort of computational cocktail, or he or she will stay somehow off tune and loosing the main conversation that is going on among the new post-contemporary art practitioners. My point of view on this particular issue though is that in the end if we expect artists to create artworks this still means techne (τέχνη). Cognitive representation without craftsmanship and holism, is not art. The difficulty though is to know where does conventional knowledge, technology and science stops to aesthetic representation begins. I am since the last two years in the mental process of conceiving a new form of local currency, of symbolic bartering. In the end I will have to design, model and mint a new coin that may respond to the huge collapse of trust that is presently destroying so many things we cherish for so long. It is not a practical solution I am working on though. It is a cognitive-symbolic one! In the beginning money and art were the same trade. I’m wandering the way back to Paradise.

Obs: this is a keynote to the 12th Consciousness Reframed International Research Conference, presented at Centro Cultural de Belém, Lisboa, on December 1st, 2011.

Copyright © 2011 by António Cerveira Pinto

The following is a collage of previous texts of mine revised and edited for this seminar and a theoretical background for the ongoing art project, Single coin.


domingo, 13 de maio de 2012

O artista sem qualidades

Hegel retratado por Schlesinger

Fernanda Maio e a deriva populista e burocrática da arte nas sociedades do Capitalismo tardio
por ANTÓNIO CERVEIRA PINTO

"A presença da arte em espaços públicos, através da presença do artista, serve muitas vezes para colmatar a ausência de uma intervenção política efectiva. Dessa forma, a promessa da colaboração das pessoas num empreendimento criativo substitui o diálogo realmente democrático."

in Fernanda Maio, A Encenação da Arte (2004, 2011), p.245

O livro A Encenação da Arte (2004, 2011), de Fernanda Maio (1968), que acabo de ler em Português, resulta da sua tese de doutoramento realizada no Goldsmiths College, de Londres, em 2004. É um estudo fundamentado e impiedoso sobre a miséria da arte na fase tardia, populista e burocrática das democracias capitalistas ocidentais. Na realidade, o livro poderia levar um de dois subtítulos: da arte moderna à arte burocrática nas democracias capitalistas ocidentais, ou, para ser mais  curto e incisivo, do fim da modernidade ao artista sem qualidades.

O estado de indigência da arte produzida no âmbito protegido e ao mesmo tempo manipulado e instrumentalizado do dito Estado Social é uma consequência paradoxal do declínio deste último.

Desde a década de 1970, sobretudo depois da primeira grande crise petrolífera e da constatação do Pico do Petróleo nos Estados Unidos, que os países capitalistas se viram na contingência de trocar o antigo colonialismo focado na exploração das matérias-primas fundamentais existentes no chamado "terceiro mundo", por um mal-disfarçado neocolonialismo, cujos pressupostos foram, por um lado, a promoção da independência política das colónias europeias que ainda subsistiam nas décadas de 1950, 1960, 1970, e por outro,  a formalização democrática (sobretudo depois de 1990) dos povos colonizados pelo Ocidente desde o início do século XV (Ceuta, 1415). Esta nova colonização sofisticada, igualmente agressiva, tem sido mediada por supostos poderes soberanos que, na realidade, não deixaram nunca de ser, até à emergência da China, a partir da década de 1990, instrumentos imperiais de exploração e domínio. A novidade do neocolonialismo é esta: para lá das matérias primas preciosas a extrair dos territórios de soberania formal, o Ocidente capitalista desenvolvido precisava agora de somar à extracção barata dos recursos materiais das antigas colónias, a exploração de um outro recurso que no Ocidente começava a escassear e era em todo o caso cada vez mais caro: o trabalho!

A economia de serviços não produz nem batatas, nem automóveis, nem telemóveis. Limita-se a criar e desenvolver conceitos e ideais de não-trabalho. No limite, tentou imaginar, desejar e tanto quanto foi capaz implementar uma civilização de consumo e prazer. Centenas de milhões de camponeses abandonaram os campos para, num primeiro ciclo, trabalharem nas cinturas fabris que rodearam as antigas cidades de origem burguesa e comercial. Depois de as fábricas começarem a emigrar para a América Latina e Ásia, os subúrbios industriais e novas periferias sucessivamente conquistadas ao campo deram lugar ao crescimento suburbano das chamadas metrópoles, onde os antigos operários substituíram os martelos e os tornos por secretárias e telefones. Em apenas dois séculos o homem europeu (na Europa e na América) deixou de produzir alimentos e utensílios com as suas próprias mãos, entregando tais tarefas às máquinas, aos autómatos e aos novos sobre-explorados da América Latina, de África e da Ásia — que respondem, aliás, por mais de 5/6 da população mundial.

A tecnologia e o novo-mundo, pelo melhor preço e nenhuma ou fraca resistência política ou social à exploração, atraíram "naturalmente" o capital, deixando atrás de si um exército crescente de desempregados e uma escassez crescente e sistémica de emprego. A solução paliativa encontrada pelos poderes demo-populistas ocidentais para este enorme problema foi, desde o início da década de 1970 até à crise de endividamento público e privado em que os chamados países desenvolvidos estão imersos desde 2008, a criação de emprego fictício, cada vez mais burocracia, e o financiamento do consumo pelo endividamento. A monetarização necessária para cumprir este objetivo em última instância suicida assentou numa economia de casino, puramente especulativa e virtual. Um tal castelo de cartas teria que inevitavelmente sucumbir à pressão conjunta da progressiva mas inexorável escassez de energia barata, de matérias primas industriais, de água e de bens alimentares suficientes para uma demografia em crescimento exponencial.

O Estado Social, que começara por ser, no tempo em que o conservador Otto von Bismarck (1815-1898) o lançou (1881), uma estratégia para apaziguar os movimentos operários revolucionários e para, ao mesmo tempo, aumentar a competitividade do novo "império alemão" face aos desafios da América, onde o trabalho era mais bem pago do que na Europa, foi-se degradando a partir do momento em que se transformou numa rede social alargada para proteger da indigência uma população sem empregos produtivos que não pára de aumentar desde a crise petrolífera de 1973.

Assim, e para além dos serviços tradicionalmente prestados pelo Estado Social nos seguros contra acidentes de trabalho, na assistência à doença, no subsídio do desemprego, na educação e na jubilação dos que chegam ao fim de uma vida longa de trabalho, fomos assistindo ao longo das últimas quatro décadas a uma verdadeira hipertrofia burocrática dos países desenvolvidos, do Japão aos Estados Unidos, passando obviamente pela Europa. Para suprir os efeitos mais nefastos da maciça destruição do emprego produtivo ao longo destas décadas, os governos demo-populistas foram levados, todos eles, a aumentar o gasto público sob a forma de investimento em redes públicas e semi-públicas de educação permanente e emprego social, mas também sob a forma de criação de liquidez financeira orientada para o consumo. O crescimento tornou-se desta maneira um verdadeiro embuste estatístico e uma miragem de progresso atrás da qual se escondeu, como agora estamos a constatar, um enorme e árido vazio!

A digressão foi longa, mas é porventura a esta luz, que a dissertação de Fernanda Maio revela a sua tremenda oportunidade crítica.
"Ao concluir o meu estudo estou inteiramente convencida uma prática de que não precisamos de uma arte que desempenhe o papel da política e da regeneração urbana, mas seria bom que tivéssemos uma prática artística verdadeiramente empenhada politicamente. Não considero relevantes os discursos sobre 'arte  democrática' que esvaziam de sentido todo o argumento político. Defendo, em vez disso, uma p´ratica artística eticamente responsável e socialmente comprometida."

in Fernanda Maio, A Encenação da Arte (2004, 2011), p.247

A arte característica do período de apogeu e declínio do Estado Social durou o que durou este declínio, denotando na esmagadora maioria dos casos e ao longo da sua breve existência um sobrevoo superficial sobre disciplinas alheias e uma ética quase sempre oportunista. Condenada pela pressão dos subsídios a procurar as comunidades que pela via fiscal os subsidiam, a verdade é que ficaram e continuam a ficar quase sempre muito longe das audiências e dos públicos pretendidos. Nunca puderam nem podem competir com a televisão, nem com o cinema, nem sequer com os espectáculos musicais, ocorram estes nos grandes festivais ou na rede capilar dos bares e discotecas que acolhe por esse mundo fora os celebrados DJs e VJs. Há um tremendo fracasso na arte dita conceptual e post-conceptual: nem foi tomada a sério pela Teoria, nem amada pela prole urbana e suburbana da cultura Pop.

Isto, a arte comercial sofisticada e especulativa do complexo galerístico-museológico, ou o consumo espetacular de uma cultura assente na produção e consumo de estímulos estéticos e ideológicos superficiais parecem pois dar uma vez mais razão ao pessimismo de Hegel (1770-1831) sobre a sobrevivência da arte como domínio espiritual autónomo da humanidade.

E no entanto existem imagens, palavras e vozes que na sua inexplicável perenidade e capacidade de nos comover contradizem o fatalismo do negativismo filosófico em que estamos fechados há pelo menos dois séculos. Talvez regressando a John Dewey (1859-1952) e ao estudo da "experiência estética" possamos reconstituir os caminhos genuínos de legitimidade e autonomia da técnica, da tecnologia e do estudo (τέχνη) que alicerçam o grande edifício das artes.

Copyright © 2012 by António Cerveira Pinto