quinta-feira, 6 de outubro de 2005

A casa expandida

Juarez, México - uma das cidades com maior taxa de criminalidade e de crescimento demográfico simultâneos (vista aérea Google)

A caminho de um novo Deus
por ANTÓNIO CERVEIRA PINTO

Continuamos a esperar da nossa casa, ou da casa dos nossos pais, que seja um abrigo seguro, onde possamos cumulativamente descansar, comer, cuidar (pelo menos parcialmente) da nossa higiene e aparência, confraternizar com a família e os amigos, fazer amor, acumular objectos, organizar informação, guardar memórias e também, nalguns casos, trabalhar. Estas são as funções persistentes de um lar em qualquer parte do mundo, do mais miserável ao mais sofisticado, provavelmente desde que a grácil criatura a que os investigadores chamaram Eva Mitocondrial apareceu à face do planeta há uns 150 mil anos. Não vão mudar muito no escasso tempo que medeia entre a fase pantagruélica do mundo desenvolvido e carbónico que nos tocou viver e o próximo período longo de dificuldades profundas que espera a espécie humana numa qualquer esquina do colapso energético, económico e social que se avizinha rapidamente. Tornada clara esta hipótese de trabalho, o que se segue não passa de uma breve reflexão sobre um intervalo infinitesimal da história humana: 50 a 100 anos no máximo!

Tomando boa nota da publicidade intrusiva que minuto a minuto proclama a inevitabilidade de um destino agarrado ao telemóvel e em geral ao mundo fascinante da computação inteligente e ubíqua, dizer-se-ia que, pelo menos nas próximas duas décadas, a arquitectura dos abrigos humanos, incluindo os abrigos de trabalho, os hospitais, as discotecas, as prisões e os cemitérios, tenderão a sofrer uma mutação genética no sentido de uma magnificação virtual. Quer dizer, podemos esperar que todas estas formas de abrigo (pelo menos nos países ditos evoluídos), na confluência bizarra entre o desenvolvimento exponencial das tecnologias e nanotecnologias cibernéticas (duras e moles), por um lado, e as crises resultantes do fim da energia barata e dessas duas matérias primas definidoras da era actual (o petróleo e o gás natural), possam tender para uma intensificação sem precedentes da sua nova dimensão informática (electrónica, digital, computacional, bio-genética). Nas cidades meio paralisadas pelos custos insuportáveis da energia, pelos conflitos sociais, pela falência irreversível dos actuais sistemas políticos e pela insegurança extrema (boa parte das cidades da América Latina são o paradigma desta tendência geral) imperará o tele-trabalho, a tele-economia, a tele-agricultura, a tele-medicina, o tele-convívio, o tele-prazer, o tele-policiamento e os tele-funerais. Apesar da distopia, não deixa de ser um desafio interessante para os arquitectos, desde que saibamos expandir, em muitas direcções, a própria noção de arquitectura.

O tempo da especulação imobiliária, tal como a conhecemos, acabou. É o fim da época horrível dos modelos suburbanos das sociedades automóveis. E é também o princípio do declínio da época pindérica dos condomínios burgueses de uma classe média à beira do suicídio. Depois disto, em menos de 20 anos, teremos o regresso aflito dos cidadãos digitais aos centros urbanos, estejam estes onde estiverem. Assistiremos também, muito provavelmente (antes de 2050), ao aumento exponencial da densidade pós-urbana em todos os lugares do planeta onde houver suficientes recursos acumulados. À volta destas megalopólis tecnológicas, dos sub/super mundos que tentarão sobreviver ao colapso das democracias industriais, crescerão cinturas verdes e zonas transgénicas de proximidade, com muitos quilómetros quadrados de superfície, rigorosamente vigiados pelas redes de agentes virtuais inteligentes (rAVI), entretanto elevadas à categoria de novo Deus ex machina.

O objectivo imediato deste novo mundo é sobreviver ao colapso provocado pela exaustão de recursos e profundas feridas ecológicas causadas pelo crescimento estúpido da espécie humana. Por um lado, se houver juízo, impor-se-à a paragem dos crescimentos exponenciais de população onde os houver, combinando o apoio económico a essas sociedades com exigências políticas absolutas. Por outro, redefinir-se-à radicalmente o actual modelo de valores, transformando as sociedades de consumo e de desperdício materiais em sociedades essencialmente espirituais, baseadas num novo sistema de produção de imateriais e num novo regime de trocas simbólicas. O segredo destas novas sociedades resume-se, por assim dizer, à produção (emergência) de um novo tecido social inteligente, repartido entre a termodinâmica dos corpos moleculares e a velocidade electrónica criativa das redes de inteligência e subjectividade digital.

Se este futuro for possível, então teremos que pensar nas arquitecturas como sistemas de pensamento e cálculo de estruturas de mobilidade molecular limitada e tele-realidade. Por um lado, a nova cidade terá que ser redesenhada à medida dos nossos pés, como um sistema de praças comunicantes e lugares únicos; por outro, a nova cidade terá que ser reconstruída sob o regime imaterial de um sistema de interfaces de contacto virtual em rede. Na realidade, o nosso futuro como espécie evolutiva depende inesperadamente (depois de um devastador século secular) da transformação espiritual profunda do nosso ser social. Depois de ultrapassarmos os medos atávicos, e sobretudo as resistências das economias instaladas, poderemos e deveremos esperar uma boa ajuda a esta causa por parte do uso criativo das nano-bio tecnologias.

Carcavelos, 06 de Outubro de 2005.

Copyright © 2005 by António Cerveira Pinto

terça-feira, 13 de setembro de 2005

Inteligencia colectiva y redes creativas

La colección de arte digital del MEIAC
por ANTONIO CERVEIRA PINTO
Nous proposons ici de concevoir des mondes virtuels de significations ou de sensations partagées, l’ouverture d’espaces où pourront se déployer l’intelligence et l’imagination collectives. — Pierre Lévy *
Este texto debe ser leído como parte de una serie de reflexiones personales sobre el futuro de los museos de arte contemporáneo y sobre el futuro aún, mas discutible, del propio arte contemporáneo. A la vez que argumentaremos, con la máxima honestidad posible, sobre la metamorfosis de los paradigmas modernos de la cultura occidental, intentaremos de otra parte (con igual disciplina intelectual y de acuerdo con la estimulante iniciativa emprendida por el MEIAC) avanzar una propuesta de reflexión teórico-práctica que incida en la necesaria adaptación de la institución museológica a los desafíos de esa omnipresente cultura bio-tecnológica a cuya expansión acelerada estamos todos adaptandonos.

El programa de acción en curso puede resumirse a una idea repetida: metamorfosis, metamorfosis, metamorfosis. Lo que viene a querer decir, paso del museo material a un museo inmaterial (en realidad, un bio-museo), elevación del público a la categoría de actor curatorial y transformación del lugar arquitectónico en una topología avanzada de democracia, urbanidad y vida multimodal. A pesar de la globalización, o precisamente por su causa, continua teniendo sentido entender la actividad artística, y sobretodo las causas de su legitimación crítica y valorización comercial, así como su notoriedad, en función del respectivo origen geo-estratégico. En este caso, tomando buena nota de las aportaciones creativas más relevantes, independientemente de su procedencia geográfica, el MEIAC inició hacia el año 2000 una política de adquisiciones y exposiciones en función de la importancia seminal de algunos artistas en el nacimiento del nuevo arte pós-contemporáneo, y por otro lado, dar el debido relieve a la producción digital y generativa de autores oriundos del mundo ibérico y latino-americano. La exposición META.morfosis resume de la mejor forma posible esta aspiración. La actualidad creativa de autores como Marta de Menezes, Joan Leandre (a.k.a Retroyou), Brian Mackern, Santiago Ortiz, Arcangel Constantini, Rosa Sanchez y Alain Baumann (a.k.a Konic thtr), Fran Ilich, André Sier ou Gustavo Romano, entre otros, lo justifican plenamente.

Analítica del momento pos-moderno

El uso de las tecnologías industriales científicamente avanzadas en la producción artística no es cosa reciente. De hecho, este enlace de intereses ocurrió sin margen de dudas, en el siglo que discurre aproximadamente entre 1839 e 1939, por ocasión de los inventos sucesivos de la fotografía, de la fonografía, del rotograbado, del cine y finalmente de la televisión. Curiosamente, o no, este mismo siglo, algo desplazado de la cronología Cristiana convencional, coincide con una tendencia generalizada para la abstracción en el arte moderno, el cual tradujo, antes de nada, una deriva crítica y psicodramática muy intensa de la praxis artística moldeada por los vientos libertarios de la Revolución Francesa y del Romanticismo. La importancia creciente de la burguesía y de la pequeña burguesía urbana hizo, por otro lado, aparecer un nuevo género de consumidor de artes plásticas. Las artes al servicio de la retórica religiosa y de la política dieron lugar a una pintura y a una escultura de dimensiones sobretodo domésticas, laicas, hedonistas y críticas, frecuentemente orientadas hacia la naturaleza, la intimidad y el erotismo. El arte se volvería, así, más filosófico, psicológico, poético y egocéntrico. En esta deriva libertaria, y metafísica, el modernismo y las sucesivas vanguardias que le sucedieron llevaron a cabo una sistemática y obsesiva desfiguración de la figura, una des-imaginación de la imagen, o diciendo esto de otra manera, el desplazamiento retiniano de los procesos de constitución fenomenológica de lo representado. Guernica, de Pablo Picasso, y El Perro Andaluz, de Luis Buñuel, son dos impresionantes ejemplos de esto mismo. Pero así fue también con Cézanne, Seurat, Picasso, Malévitch, Mondrian, Tzara, Duchamp, Moholy-Nagy, Pollock, Ad Reinhardt, Rauschenberg, Warhol, Bacon, Alan Kaprow, Guy Débord y muchos otros artistas igualmente elocuentes. Las etiquetas de esta desfiguración —impresionismo, cubismo, suprematismo, neoplasticismo, combine painting, concretismo, op art, happening, situacionismo, etc.— fueron cambiando a lo largo de las décadas, pero no su intrínseca lógica des-constructiva. En una verosímil hipótesis historiográfica para el período comprendido entre mediados del siglo 19 y mediados del siglo 20, podremos seguramente afirmar que el arte atravesó un período de mutaciones tecnológicas muy rápidas y de crisis agudas en los dominios de la forma, del uso social (privado y público), y del sentido filosófico de la propia praxis estética. Por otro lado, podremos seguramente afirmar que, hasta que un nuevo paradigma antropológico rescate el arte moderno de su actual torpeza contemporánea, continuaremos muy probablemente asistiendo, por un lado, a sucesivos reciclajes (pos-modernos) de sus varios productos y sub-productos, y por otro, al desmenuzamiento puramente especulativo y oportunista de las retóricas más o menos palacianas alrededor del adjetivo contemporáneo. El movimiento de autodeterminación nominalista realizado por el arte moderno se tradujo, paradójicamente, en una evidente pérdida de influencia disciplinar y social de las artes plásticas tradicionales (pré-informacionales y pré-mediáticas) sobre el universo de la representación simbólica de la realidad deseada por los poderes dominantes. Aparecer en la prensa escrita, en la radio, en el cine, en la televisión se volvió, así, mucho más apremiante y importante para los varios protagonistas de la Historia, que aparecer en una pintura expuesta, o en la escultura que marca una cualquier rotonda urbana. Aunque el modernismo haya tenido como su principal empeño eliminar esa misma presencia ideológica del programa de sus creencias, preocupaciones y objetivos, la verdad es que este sujeto inoportuno de la representación tuvo él mismo el cuidado de retirarse de tal escenario así que desveló otro bien más realista y convincente: el escenario de los nuevos media emergentes. A su vez, el artista moderno y contemporáneo, libertándose del objeto de la representación en general, asumió muy rápidamente el papel de un autor dividido entre dos especies de pulsiones críticas: la narcísica (histero-neurasténica) y la filosófica (analítico-conceptual). El precio a pagar por esta especie de condenación a la libertad fue la creciente incomprensibilidad de su trabajo, su ininteligibilidad y la reducción micrológica de las respectivas plataformas de percepción subjetiva. El arte moderno comenzó entonces a caminar cada vez más frecuentemente para el diván de la libre asociación, llamando alternadamente a las puertas de los consultorios de Freud y de Jung. Este arte fue por tanto transformado en una cosa de familia, alejándose de la nueva sensibilidad social-urbana emergente, identificada por expresiones como público y audiencia — y que hoy bien la podríamos llamar la sensibilidad del hombre-masa (descubierto por Ortega y Gasset.) Fueron sobretodo los fotógrafos, cineastas, publicitarios, modistos y músicos, que primero entendieron la importancia de aprender a comunicarse con los respectivos públicos en ese nuevo mundo de ciudades interminables, movimiento urbano sin fin y multitudes. El tiempo de la pintura no llegará al fin, de hecho, pero el tiempo de las artes dominantemente pseudo-contemporáneas, ¡sí!

Implosión de las pseudo-vanguardias

Pero si los nuevos medios de representación simbólica (mass media), con todo su potencial de verdad (derivado del conocido noema fotográfico de Roland Barthes, “esto ha sucedido “, o del “esto está sucediendo ahora”, del directo televisivo) relegaron, también ellos, las bellas artes para una especie de limbo elitista entregado a su muy peculiar economía especulativa (Philippe Simonnot lo llamará doll’art), la verdad es que los mass media, incluyendo los más creativos, fueron igualmente tomados por un frenesí de apropiación y concentración de recursos sin precedentes, dejando a los nuevos artistas consumopolitas atados a una lógica de la representación simbólica dependiente de estrategias de seducción estética provenientes casi exclusivamente de la psicología del comportamiento y del marketing, con una finalidad semiótica invariablemente pueril. 

Por otra parte, es de la condición moderna del arte, caminar para una especie de régimen general de la reproductibilidad (Walter Benjamin): libros, revistas, fotografía, cine, discos de audio, televisión. La perdida de aura que toca la obra de arte en la era de su reproductibilidad técnica inmaculada, o al menos, la transformación de esa obra en un episodio menos duradero de lo que la persistencia supuestamente producida por la museología de lo contemporáneo, no impidió, sobretodo en la lógica de la revalorización especulativa, la persistencia, y hasta la exponenciación absurda del objeto artístico original como valor de refugio de la acumulación capitalista. En una palabra, el rapto de las bellas artes por la avidez insaciable del dinero condujo este nicho de la creatividad humana para un nuevo limbo de libertad condicional y de reificación castradora. La sofisticación del capitalismo permitió elevar las vanguardias estéticas al nivel de excelentes productoras de plus-valías, enigmáticas, transportables y resistentes a los aparatos fiscales de la mayoría de los países. Esto no llegó a configurar la propia implosión de las vanguardias porque éstas ya no están donde se cree y se hace creer que están. El lugar de las vanguardias pos-contemporáneas es de hecho un “no-lugar”, multipolar, fractal, ubicuo, altamente voluble, restringido, fragmentado, compartido, transitorio, vuelto del revés, neural, bio-artístico. Las viejas categorías críticas se aplican mal a la comprensión de lo que sobrevino al espíritu de las vanguardias históricas. Los manifiestos se volvieron ridículos, tal como la mayoría de los moralismos atávicos e idiosincrasias geniales que aún hoy supuestamente justifican el llamado arte contemporáneo y sus vanguardias. En definitiva, sabemos poco de inteligencia colectiva (Pierre Lévy) y de multitud (Michael Hardt y Antoni Negri), pero sabemos que después de que Douglas Engelbart inventara el bitmap, Alan Kay creara el GUI (Graphic User Interface) y Tim Berners-Lee programara la World Wide Web, ¡buena parte de las catedrales del mundo analógico están en riesgo de evaporarse! En su lugar, en ese lugar donde el espacio es virtual, pero el tiempo es real, comenzó a nacer un nuevo universo, hacia donde partimos y de donde regresamos en un vaivén (tele-transporte) continuo y frenético, cada vez mas absorbente. Se trata desde ya, de un comienzo y de un aprendizaje. Pero los efectos de este inicio de camino por el laberinto digital de la tecnosfera (que Pessoa vivió intensamente a partir de su sistema heteronómico y Borges imaginó en Aleph) dieron ya señales suficientes de que, también en el campo de las artes, habrá una mutación radical de sus propias condiciones de existencia y propagación.

El nuevo vórtice bio-tecnológico

Entre la masificación manipuladora del arte comercial y la perversión especulativa del llamado arte contemporáneo comenzó a emerger una nueva creatividad democrática aumentada, cuyos medios de expresión y diseminación (open source/ peer 2 peer) vienen siendo proporcionados por las productoras y editoras alternativas de contenidos gráficos, audiovisuales y computacionales, así como, de hace una década a esta parte, por la expansión extraordinaria de la World Wide Web. Poco a poco, la ilustración, el cómic, la animación, el vídeo, los juegos electrónicos, el DJ/VG, pero también el arte generativo, el llamado net art y en general el arte producido por las comunidades creativas virtuales, fueron rellenando ese vacío cultural generado en el éter de la comunicación global y de la propia cultura urbana (y trans-urbana) por la basura mediática pos-moderna, y también por la sofisticación, cada vez más defensiva, de las famosas vanguardias artísticas. El netcast creativo, por oposición al broadcast estupidificante, vino a establecer un lugar único para la cultura y las artes pos-contemporáneas. Lo que éstas serán en el futuro, no sabemos decir… Creemos apenas que prosperarán como una nueva escalada civilizacional sin maestro, potenciada por incontables e imprevisibles agentes (los ángeles —para retomar la bella paráfrasis de Pierre Lévy) inteligentes y creativos, animados por el centelleo luminoso de su nueva e inesperada agitación filogenética.

Es frecuente discutir el futuro de las artes digitales, sobretodo de la net art, en términos de su improbable economía, la cual condenaría a largo plazo a los respectivos autores, no permitiendo, por otro lado, un verdadero empeño de galeristas, ferias de arte, museos y coleccionadores en este tipo de manifestaciones artísticas. La discusión, aunque comprensible, no tiene futuro ni sentido, dada la condición genética de la nueva praxis artística. De otra forma, discutir la suerte de las tecno-artes de base electrónica, digital, computacional, interactiva (off-line y on-line) y comunicacional (off-line y on-line), en una perspectiva tal, muestra hasta qué punto fuimos capaces de destorcer la antropología del acto creativo en nombre de los objetivos inmediatos del mercado. Si el arte contemporáneo es el resultado de un acto de libertad personal, no tiene sentido aceptar el mercado como presupuesto de su propia supervivencia. Ni mucho menos creer que, sin la precedencia mercantil, dejaría de haber condiciones para garantizar su existencia y su sentido cultural. La actual diseminación de la creatividad artística por la tecnosfera implica dejar atrás varios modelos y prácticas. Una de ellas es, precisamente, el actual mercado del arte, con sus galerías, ferias y subastas. El camino a recorrer tendrá que ser necesariamente otro.

La actual migración de los mejores potenciales creativos para la tecnosfera está caracterizada por una serie de fenómenos simultáneos: crecimiento exponencial del número de autores, de obras y de iniciativas de diseminación y compartición de experiencias; crecimiento exponencial de los recursos informáticos (hardware, software y programas) y de las bibliotecas de código disponibles; expansión de las redes y comunidades de autoría compartida; aumento imparable de la masa crítica necesaria al nacimiento de una verdadera super-nova en el dominio de las artes. Cuando las centenas o millares de redes inteligentes de la creatividad actualmente en funcionamiento en la tecnosfera consigan confluir para una misma topología de convergencia tecnológica y comunicacional estaremos, muy probablemente, a un paso de saltar del paradigma meta-artístico actual para una verdadera hiper-arte. En realidad, necesitamos hacer confluir más rápidamente tecnología y biología para que este deseo se dé finalmente. Cuando esto suceda, habrá una separación decisiva entre la nueva condición pos-contemporánea y la modernidad que nos trajo hasta aquí.

Arqueologías del futuro

“La Máquina Podrida” de Brian Mackern, un laptop que contiene todo aquello que el artista Uruguayo inscribió en el respectivo disco duro a lo largo de la vida útil del ordenador (1999-2004), tal como “Every Icon”, de John F. Simon, una matriz de 32×32 cuadrados que calcula todas las posibilidades de cada uno de los cuadrados poder ser coloreado a negro o blanco (1,36 años a calcular a primera línea, se a una velocidad 100 iconos/seg; 5,85 mil millones de años a calcular la segunda línea, se a la misma velocidad de 100 iconos/seg.) son dos ejemplos de una praxis artística que ya poco tiene que ver con el período terminal del arte contemporáneo. “Every Icon” es una clara manifestación de lo sublime tecno-conceptual. A su vez, “La Desdentada”, mote jocoso de “La Maquina Podrida” (le faltan algunas teclas…) almacena en su interior decenas de obras de Brian, pero no solo. Guarda igualmente proyectos inacabados (suyos o en colaboración con otros artistas), obras de muchos otros autores (respectivamente de los primogénitos de la net art), correspondencia, aplicaciones y programas informáticos varios, etc. Se trata, por tanto, de una obra —que el MEIAC adquirió, tal como “Every Icon”— que fue también la principal herramienta creativa del autor, y su verdadero estudio de trabajo. En ambos casos somos confrontados nostálgicamente con los límites de la materia cara al mundo inmaterial contenidos en el cálculo por ambas máquinas. “La Maquina Podrida” es uno de los primeros restos arqueológicos (museológicamente conservado y expuesto) de la más reciente revolución artística por la que la humanidad está pasando. “Every Icon”, a su vez, es una especie de demostración estética de la distancia que separa la dimensión infinita del pensamiento matemático y la realidad, tecnológica y ultra-rápida. Al contrario de lo que algunos podrían pensar, continúa habiendo esperanza en el futuro del arte, aunque ese futuro camine rápidamente para un nivel de creciente acuidad cognitiva y compartimiento creativo en red.

* Chorégraphie des corps angéliques. Athéologie de l’intelligence collective in Pierre Lévy, L’Intelligence collective. Pour une anthropologie du cyberespace (Paris, La Découverte, 1994). Traducción : Laly Martín

Este texto se ha publicado por primera vez en el catalogo de la exposición inaugural del Instituto Cervantes de Praga, in “Borderlines / En las Fronteras”, promovida por el MEIAC – Museo Extremeño Iberoamericano de Arte Contemporáneo, en 13 de septiembre (hasta el 18 de noviembe) del 2005.


Copyright © 2005 by António Cerveira Pinto

domingo, 1 de maio de 2005

O grande estuário

O Grande Estuário, visão aérea (2005)
©Ideia original (2005): António Cerveira Pinto
Desenvolvimento (2005): António Cerveira Pinto, Carlos Sant'Ana, Daniela Lopes, Inês Melo, Mónica Garcia, Nuno Almeida, Ricardo Sousa.

A hipótese: Lisboa, 2030
por António Cerveira Pinto

Portugal tem hoje cerca de 10,5 milhões de habitantes. 80% desta população reside ao longo da faixa litoral. A correspondente taxa anual de crescimento é da ordem dos 0,5% (0,1% de crescimento natural e 0,4% de crescimento migratório). As previsões demográficas da ONU (revistas em 2004) apontam para 10.723.000 pessoas em 2050 — quer dizer, um acréscimo que não chega aos 300 mil habitantes.

As cidades de Lisboa e Porto perderam, entre 1991 e 2001, mais de 130 mil habitantes para as respectivas periferias. O concelho de Lisboa, por si só, perdeu mais de 240 mil residentes entre 1981 e 2001. Mas a concentração populacional e urbana na Região de Lisboa e Vale do Tejo (3.467.483 de pessoas em 2001), e mais especificamente da Grande Área Metropolitana de Lisboa (2.661.850 de pessoas em 2001), continua a dar-se de forma contínua, com especial incidência nos concelhos de Sintra, Amadora, Loures, Almada, Seixal e Setúbal. Quem percorre as periferias das duas maiores cidades portuguesas apercebe-se dos impressionantes ritmos de sub-urbanização que desde há três décadas têm descaracterizado estas zonas.

No caso da Grande Área Metropolitana de Lisboa, a par da má qualidade urbanística e arquitectónica do património edificado, aumentou dramaticamente o volume e intensidade dos movimentos pendulares periferia-centro-periferia e abrandou a velocidade de circulação automóvel entre localidades, diminuindo assim o tempo pós-laboral disponível e aumentando as despesas com os transportes, nomeadamente as implicadas na aquisição e uso do automóvel.

A dispersão suburbana actual (com as respectivas cidades e aldeias dormitório) é uma paisagem cuja origem pode ser localizada numa conjuntura e num tempo muito precisos: nos Estados Unidos depois da 2ª Guerra Mundial. Gasolina barata, crédito democrático para comprar casas e automóveis, dezenas de milhar de quilómetros de estradas e auto-estradas, cinemas “drive-in”, “super-markets”, “shopping malls” e “theme parks”; em suma, tudo isto e o sonho americano de uma casinha independente, com relvado e grelha de churrasco à porta. O mesmo sonho, recauchutado, mas ainda assim encantador — apartamento e lareira, automóvel e ’shopping’ —, chegou até nós no princípio da década de 1980 e durou praticamente até ao dealbar do século 21. Entretanto, depois dos atentados de 11 de Setembro e da última guerra contra o Iraque, as coisas começaram a mudar. Em 1998 o petróleo custava 12 USD o barril, em 2003 custava 25 dólares, em Outubro de 2006 andava pouco abaixo dos 60 USD, e a 1 de Agosto de 2007 chegou aos 78,77 USD, ultrapassando o máximo absoluto de 78,40 dólares por barril registado em 13 de Julho de 2006. Apesar de o mercado ter previsto um aumento médio dos preços do crude na ordem dos 31% ao ano, a verdade é que o barril de petróleo triplicou de preço entre 2002 e 2007, e custa hoje seis vezes mais do que no ano em que inaugurou a EXPO'98. A gasolina sem chumbo 95, por sua vez, custa hoje em Portugal o dobro do que custava em 1998.

O efeito conjugado da especulação imobiliária, do desemprego, da subida generalizada do custo de vida e de uma maior pressão fiscal, obrigará cada um de nós a fazer melhor as contas domésticas e a eleger com muito mais cuidado as prioridades de investimento. Se o barril de petróleo chegar aos 400 dólares em 2017 (não nos esqueçamos que o preço do barril multiplicou por 6 na década que vai de 1997 a 2007), e o litro de gasolina sem chumbo 95 não custar menos de 2,6 euros, os centros urbanos e todas as principais interfaces de transportes urbanos e suburbanos tornar-se-ão muito mais atractivos do que já hoje são. A especulação imobiliária aumentará ainda mais, assim como a actividade de construção nos referidos polarizadores urbanos. Se não houver entretanto nem visão estratégica nem planeamento adequados por parte dos poderes autárquicos e autoridades municipais, as complicações poderão ser mais do que muitas.

A nossa visão do Grande Estuário assenta basicamente em três previsões: que vamos gastar mais combustíveis fósseis no futuro imediato antes de os consumos globais começaram inexoravelmente a decair; que vai haver uma transição apressada e dolorosa das actuais energias carbónicas para sistemas energéticos renováveis (e nucleares de terceira e quarta geração?); e que durante tal transição boa parte dos subúrbios poderão implodir, originando o repovoamento e aumento de densidade demográfica das velhas cidades.

Entretanto, que poderemos fazer?

O Grande Estuário propõe uma plataforma de trabalho assente em quatro pilares:
  1. Obs(ervatório)
  2. Simulador de futuros (SdF)
  3. Núcleo de Exploração Urbana e Suburbana – neXus
  4. Banco de Horas

PRIMEIRAS CONCLUSÕES

É necessário reformular os actuais sistemas de mobilidade urbana e suburbana:
  • localização de um novo aeroporto na Base Aérea Militar do Montijo articulado com os actuais aeroportos da Portela e de Tires;
  • construção de duas novas pontes (Chelas-Barreiro* e Belém-Trafaria**);
  • introdução de novos sistemas de transportes (Maglev, “Tram-Train”, táxis fluviais, etc.); expansão das redes de Metro de superfície e dos corredores BUS (estendendo-os para fora do perímetro urbano da cidade); criação de novas interfaces multimodais aproveitando os nós das grande vias de penetração e circunvalação da cidade de Lisboa.
A solução da Grande Área Metropolitana de Lisboa passa obrigatoriamente pela resolução de um problema chamado Lisboa, ou melhor dito, centro de Lisboa.

Envelhecido, atrofiado e incapaz de oferecer alternativas credíveis às novas tensões urbanísticas, este centro precisa de crescer (como tal, i.e. como centro) e transformar-se no verdadeiro modelo de requalificação da grande urbe.

Crescer para Sul é a nossa proposta: a zona ribeirinha entre a Almada e Alcochete, hoje em processo de sub-urbanização acelerada, deverá ser o alvo principal de uma operação metropolitana estratégica e de grande envergadura.

O lançamento de uma candidatura aos Jogos Olímpicos de 2020 seria uma boa forma de criar as condições anímicas, organizativas e políticas para a grande revolução urbana que temos em mente.

A Grande Área Metropolitana de Lisboa deveria apostar numa estratégia de desenvolvimento clara e assente em quatro grandes eixos:

  • Eixo A: Criação de Parques de Energias Renováveis, tendo em vista diminuir drasticamente a nossa dependência energética, nomeadamente dos combustíveis fósseis (petróleo, gás e carvão)***;
  • Eixo B: Generalização da Agricultura Biológica na Região de Lisboa e Vale do Tejo (com a consequente interdição das tecnologias químicas sintéticas e transgénicas);
  • Eixo C: Planeamento das actividades industriais com duas prioridades à cabeça:
    • actividades relacionadas ou correlacionadas com o mar e o rio;
    • actividades relacionadas ou correlacionadas com as novas indústrias energéticas.
  • Eixo D: Desenvolvimento de um ambicioso sistema de infraestruturas polarizadoras de turismo de fim-de-semana, de estação e residencial.
Durante os próximos tempos procuraremos insistir na sensibilização cívica para os problemas suscitados pelo Grande Estuário, dando especial relevância à discussão de uma possível candidatura ao Jogos Olímpicos de 2020, como forma de discutir o futuro desta velha e bela região.

* Objecções ao custo desta solução (nomeadamente devido à profundidade do rio no eixo previsível de implantação dos pilares) aconselham uma alternativa diferente: fazer uma nova ponte paralela à ponte Vasco da Gama, exclusivamente destinada à ferrovia (Alta Velocidade, Velocidade Elevada e extensão do Metro). Ver as investigações de Rui Rodrigues a este respeito e em particular “Como é que o governo vai descalçar esta Ota?”

** A ponte Belém-Trafaria, que permitira fechar a Circular Regional Interior de Lisboa (CRIL), é uma mera hipótese de trabalho que a estagnação demográfica, a crise económica persistente, a crise energética e a crise climática poderão tornar rapidamente obsoleta. [04/11(2006]

*** Portugal e Espanha, i.e. a península ibérica, têm condições para uma substituição integral das energias fósseis (que induzem uma dependência energética na ordem dos 86%) até 2050. Basta para isso lançar uma OPA VERDE aos cartéis que actualmente controlam a situação energética em ambos os países. [14/11/2006]

Versão original: 1 maio 2005; penúltima actualização do projecto OGE: 17 agosto 2007; última actualização deste texto: 7 dezembro 2011.


Copyright © 2005/2007/2011, António Cerveira Pinto