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quarta-feira, 25 de março de 2015

Herberto Helder: poesia completa (1930-2015)

Antonio Cerveira Pinto. Herberto Helder, corpo e alma (2015)
Foto original—autor desconhecido


Palavra, a alma das coisas


“No sorriso louco das mães batem as leves/ gotas de chuva (…)”

45 carateres chegam para sintetizar uma flor no meio da fatalidade. Esta é a grandeza da poesia que por vezes me assusta. O poder que dela emana quando mergulhamos nas suas palavras e espaços brancos tem muito do que as religiões têm: a força de religar o espaço e o tempo, a matéria e o nada, a vida e a morte. A palavra pensada para sentir, proferida para seduzir, escrita para guardar, é o que por vezes sobra de toda uma vida de ilusão, pessoal, familiar e ética.

Jorge de Sena, creio, diferenciava o poeta erótico que é Camões, do poeta álgico que Pessoa foi. Com Herberto Helder, o pêndulo da poesia regressa ao fulgor da carne, fenómeno cru do pensamento, de que só por cobardia, devaneio ou servidão desviamos o olhar, a atenção devida, ou a sabedoria.

Herberto foi reescrevendo uma e outra vez a sua Poesia Toda, amarrada num tijolo único de vida literária, ao longo da sua escrita. Poesia Completa foi o bater da porta, definitivo.

Herberto Helder é um poeta da carne e da terra, mas não da história, nem das ideias, e neste ponto talvez possamos ver em Fernando Pessoa a metade que lhe falta, ou faltava a Pessoa, para serem uma herança acumulada e narcisista—entendida a modernidade e a contemporaneidade exacerbadas dos últimos duzentos e tantos anos, como foram—de Luís de Camões.

“(…) a morte faz do teu corpo um nó que bruxuleia e se apaga,/ e tu olhas para as coisas pequenas/ e para onde olhas é essa parte alumiada toda”.


DA IMPRENSA

quinta-feira, 15 de março de 2012

Primavera branca e cinzenta

Monte Cativo
por ANTÓNIO CERVEIRA PINTO 

enxotei os pombos e o seu insuportável arrulhar
o som e o voo das gaivotas que povoam agora o Monte Cativo são mais toleráveis
vê-las tão perto, o esforço quando ascendem,
vê-las tão perto aproveitar e gozar as correntes de ar,
vê-las assim a voar
tem sido a maior descoberta nesta viagem a um passado que me faz sentir, pela primeira vez, o tempo...

parecem querer deixar o mar falho de peixe
e acabar na cidade comendo pombos
e eu a vê-las voar de manhã, com o Sol pelo ombro, olhando o mar e o petroleiro que espera autorização para atracar...
por quanto tempo mais?
virado a sul e a poente, no alto da cidade galega, respiro aqueles volumes de vida e a brisa do mar,
aquecido por um Sol que dá que pensar, saudades e um resto de ser

com uma faca bem afiada
retiro a película fina do limão
para recuperar o perfume do seu óleo
retiro depois a fibra branca
espremo o limão
copo, água, fibra e perfume
bebo lentamente, olhando o Sol e as gaivotas que não se cansam das táticas nupciais
gritam, encantam, tentam, namoram, olham-me às vezes nos olhos, tão perto passam diante da minha filosofia de ver
só não sei onde finalmente fornicam!

Copyright © 2012 by António Cerveira Pinto 

sábado, 21 de janeiro de 2012

Poema ridículo

Madrid
por ANTÓNIO CERVEIRA PINTO (2004/2012)

quem me dera nascer gato
haver Deus e amar-te
sou ateu e vagueio...
o coração raso, a razão perdida
querendo - raios me partam! - querendo...