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sábado, 22 de maio de 2021

Humanismo, anti-humanismo e pós-humano

ACP, Sem título, 2021

Teleologia


A propósito de Jean-François Lyotard e do seu L'inhumain/ Causeries sur le temps (1988).

O Cristianismo faz depender a emancipação última do ser humano (a sua salvação) da instauração na Terra do reino de Deus, condenando a humanidade caída em pecado a um eterno atrito material, social e moral. O Espírito do Renascimento, de que a pós-modernidade terá sido uma breve paragem introspetiva, abriu uma brecha no arcaico fatalismo mitológico ao estabelecer o conhecimento, a política e a liberdade como formas de escapar ao atavismo espacial das tribos, nações, e estados. O marxismo, ancorado na superstição teleológica do protestantismo e numa visão despótica da razão de estado, acabaria por dar lugar a uma visão cínica e nefasta da justa libertação humana das cadeias da desigualdade forjadas na exploração e na opressão dos mais fracos. Este regresso ao barbarismo religioso protestante perdura ainda, sobretudo sob o impulso do pós-estruturalismo francês saído do trauma da colaboração francesa com o nazismo, e mais recentemente, através de uma certa decadência cultural americana, expressa num pensamento 'politicamente correto' assimétrico e moralmente ambíguo. Os ventos dominantes de reparação moral das vítimas do colonialismo, das vítimas do racismo,  das vítimas do sexismo, da homofobia e da ancestral cultura patriarcal, por mais justos que sejam ou possam ser, não são o essencial da metamorfose em curso. A tecnociência, a ficção científica e a cibernética, mas também o regresso de uma filosofia orientada para os objetos e a persistência da arte (que ocupou sempre e sempre ocupará o lugar da incerteza cognitiva e verbal que dá lugar à instabilidade e transitoriedade próprias do conhecimento) são os verdadeiros motores de uma dupla descolagem dos cadáveres do determinismo. Da modernidade projetiva caminhamos agora em direção a uma pós-contemporaneidade programável, na qual o fundamentalismo das causas e dos amanhãs que cantam dão lugar a uma pragmática cultural humildemente oscilante entre o saber, a experiência, a política e a arte.

Capitalismo objetivo


Sem capital não há capitalismo nem socialismo, apenas sociedades estagnadas, violentas e falhadas.

Existem duas formas de acumular e concentrar a riqueza:
 
— explorar a força animal na fabricação de objetos, ideias e fantasias;
— desenvolver tecnologias capazes de superar as limitações físicas e biológicas do trabalho animal.

A substituição do trabalho animal por máquinas tem sido uma tendência constante da história humana. O que se ignora é qual será o resultado final desta tendência. Se todo o trabalho animal e humano, que pode ser explorado e transformado em lucro e capital, isto é, se toda a escravatura desaparecer, que acontecerá ao capital? Poder-se-à continuar a falar de lucro numa sociedade sem trabalho animal? As máquinas não têm elasticidade biológica, nem vontade própria, não têm qualquer relação simbiótica com a natureza biológica, nem se reproduzem como a vida — são capital fixo. Não podem, em suma, ser exploradas. Se, por outro lado, apenas uma percentagem ínfima da população humana assegurar no futuro toda a produção mundial, utilizando máquinas — mecânicas, eletrónicas, biológicas, macro, micro e nanoscópicas — para onde irá o fenomenal lucro obtido da exploração do trabalho dos vindouros super-obreiros manuais e intelectuais? Duas tendências atuais parecem responder a esta pergunta: a formação de uma classe de hiper-ricos, e a possibilidade de termos em breve um estado mundial dominando a ordem internacional. Haverá, por outro lado, lugar para a pergunta: porquê tantos humanos num planeta ameaçado pela sua pegada ecológica? Ao excesso de mónadas poderá pois impor-se, por necessidade lógica, a grande Mónada. Um Deus certamente indesejável por parte da humanidade excedentária.

O primeiro sinal deste pós-humanismo, da emergência de uma realidade pós-humana, ocorre já entre nós sob a forma da restrição ecológica visível nos constrangimentos descritos no ensaio de Garrett Hardin, "The Tragedy of the Commons". Há limites objetivos ao modelo de crescimento exponencial baseado no uso intensivo das energias fósseis. O fim do consumismo está à vista de todos, nomeadamente na mudança do perfil das classes médias, e na crescente complexidade tecnológica das sociedades.

Não confundir, porém, esta deriva pós-humana com o anti-humanismo de origem marxista-leninista antecedido pelo terror revolucionário de Robespierre, e mais tarde assente no existencialismo francês — traumatizado duplamente pelo anti-semitismo plasmado no caso Dreyfus e, mais tarde, pela vergonhosa capitulação francesa frente ao Blitzkrieg nazi. Não por acaso, Jean-François Lyotard, o único filósofo francês que entendeu a distinção entre a pós-modernidade e o anti humanismo messiânico de extração marxista e estalinista, parece ter-se eclipsado no recreio das universidades de esquerda.

Sublime


"Le sublime est peut-être le mode de la sensibilité artistique que caracterize la modernité" (1)

Sim, e corresponde também ao estado de espírito do indivíduo moderno, progressivamente despido de Deus. A fé em Cristo, neste Deus-homem, introduziu na Europa e na sua diáspora colonial, aquilo a que poderíamos chamar um privilégio humano, que coloca o homem ocidental acima do resto da vida e da realidade, protegido, em suma, pela ideologia da proximidade preferencial dos seres humanos à Ordem Universal, apenas conseguida por meio de uma comunhão única entre textos sagrados, racionalidade e sensibilidade. Esta arrogância religiosa colocou a humanidade e o seu planeta no centro do universo. Nesta cosmovisão, o não-humano estaria naturalmente subordinado à esfera dos servos privilegiados de Deus, isto é, à esfera humana. Mas esta, inspirada pelo Novo Testamento, viria a tomar paradoxalmente a árvore do conhecimento não como um método de acesso à verdade, mas antes como um caos de sombras cujo terror e vazio a empurram invariavelmente na direção da Fé. O saber não sancionado pelos livros sagrados interpretados pelas teologias dominantes tornar-se-ia facilmente uma heresia. E as heresias, não raramente, se pagaram com a vida de quem ousou procurar a verdade além do texto.

Este humanismo monoteísta, saído da decadência e colapso do império romano, que conduziu a Europa a uma nova ordem económica, social e ideológica com o seu centro irradiador de legitimidade política ancorado na Roma cristianizada, não resistiria, porém, à fricção dos novos 'conhecimentos de experiência feita' trazidos, primeiro, pelo método científico em gestação no Renascimento italiano, e segundo, pelas explorações marítimas iniciadas pelo portugueses nos finais do século XIV, início do século XV.

Estes dois vetores conduziriam o Ocidente ao regresso, por assim dizer, do panteísmo. Esta viagem de retorno ao futuro-anterior tardaria, porém, vários séculos a ganhar forma. 

O humanismo monoteísta (apostólico-romano) predominou sobretudo no Ocidente, até ao colapso a que hoje assistimos, mesmo nas suas variantes heréticas (luterana, calvinista e anglicana). A Reforma Protestante, e antes dela a visão crítica de Erasmus sobre a auto-suficiência paroquial, o autoritarismo e as dogmáticas, tanto dos arrogantes, corruptos e decadentes fariseus romanos, como dos novos paladinos da pré-destinação que tão bem viria a servir o espírito do Capitalismo, abririam fissuras irreparáveis desde então. No entanto, apesar desta ferida aberta, o "a priori" humanista manteve-se até hoje no Ocidente — apesar da energia convulsiva de todos os reformistas e revolucionários (John Wycliffe, Johannes Hus, Martinho Lutero, João Calvino, Thomas Müntzer, Marat, Robespierre, Karl Marx, Lenine, Trotsky); apesar do Iluminismo francês (Rousseau, Diderot, Montesquieu, Voltaire); apesar do Romantismo alemão; apesar do Positivismo inglês e de Charles Darwin; apesar do Socialismo Utópico e de Karl Marx; apesar da Psicanálise freudiana e de Jung; apesar do Neo-positivismo vienense, do Pragmatismo americano, da Teoria da Relatividade e da descoberta do ADN.

Nada melhor para o demonstrar que a luta feminista pela igualdade de direitos, contra o patriarcado e pela autonomia sexual; ou o acordar do pesadelo colonial; ou a emergência da alteridade de género, ou ainda a socialização do erotismo.

O pós-humano de que se fala, mais do que a emergência do inumano, ou do não humano enquanto democratização ontológica dos objetos no espaço-tempo, enquanto inércia, sensação, perceção e inscrição de múltiplos atores e interações, ou do que uma resignada humanidade protésica, parece ser, antes de mais, o culminar da viagem renascentista que poderá, ou não, abrir novas oportunidades para um humanismo desejável, no qual o indivíduo e as coletividades adquirem a liberdade de amar e conhecer sem ferir. Isto sim, será sublime!

E sim, a arte moderna moderna encontrou nas estratégias do sublime o modo ideal de suspensão das ideologias — incluindo as que impulsionam a ciência —, em nome de uma nova e necessária imersão holística na realidade.

quinta-feira, 5 de julho de 2018

Maker Art 2018


Scratch Built

The New Art Fest '18 lança feira de arte tecnológica


Dando seguimento à ideia de promover, em cada edição The New Art Fest, lugar e tempo para o encontro de fazedores de arte tecnológica e os seus públicos e clientes (entre os quais se encontram artistas que não computam, mas que precisam da computação ;) iniciaremos no festival deste ano uma coisa a que chamámos Maker Art.

O conceito é auto-evidente, creio ;)

Para este efeito chegámos a acordo com a Sociedade Nacional de Belas Artes (SNBA), a qual disponibilizará gratuitamente o seu grande salão durante uma semana (26-30 de novembro), para aí se instalar o Maker Art 2018, como um dos eventos The New Art Fest.

Neste espaço serão mostradas e experimentadas obras de arte, montadas bancadas de trabalho, e balcões de vendas de serviços (por exemplo cursos e workshops de computação e tecnologia), bem como uma dúzia de sofás velhos para conversar, combinar projetos, ou até realizar negócios!

Esta feira de arte tecnológica será ainda o lugar ideal para concertos e performances experimentais, demonstrações de hardware e software, e aulas espontâneas.

Será ainda o sítio ideal para anunciar novos projetos e trocar ideias.

A presença de artistas, tecnólogos, associações criativas e empresas de tecnologia é bem-vinda.

Uma das iniciativas previstas para este Maker Art 2018, é a instalação de um espaço dedicado à história dos videojogos, com recurso à emulação dos mesmos. Quantos videojogos foram criados até hoje? Tente adivinhar.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Memória do efémero

©Foto: ACP — Cravinas, 2010


Pregar às universidades


por ANTÓNIO CERVEIRA PINTO


I


O grande paradoxo das novas tecnologias é que o processo de abstracção sucessiva e incremental de que são portadoras tem um limite material bem definido, de que fazem parte vários recursos naturais e condições ambientais que se aproximam rapidamente da exaustão. Ou seja, se por um lado, grande parte da realidade exposta através dos média “benjaminianos” é pura ficção ideológica e instrumental, e portanto uma mistificação simbólica, ainda que construída e consumida como a “realidade mesma” e “presença”, por outro, começámos há algum tempo a perceber que do fim inevitável deste ciclo de metáforas pouco ou nada ficará para a História, pois esta também morrerá, e o seu possível renascimento terá forçosamente que partir do nada, i.e. de uma acumulação ininteligível de ruínas, entre as quais, as mais incompreensíveis serão, precisamente, as tecnológicas.


II


Estive na Madeira, mais precisamente no Funchal, para participar num debate sobre a memória —e em particular sobre a memória cultural, a memória das artes, a memória do sentido do belo e do belo sentido— tendo por pano de fundo as omnipresentes tecnologias digitais.


Entre as comunicações mais marcantes anotei a leitura de Nuno Crespo, crítico e professor de estética em Évora (uma tão elegante quanto tardia, e errada, retoma do formalismo estético Kantiano), e anotei a exposição do arquitecto Paulo David (sobre alguns trabalhos seus). Conseguimos escapar dos remoinhos locais e das quase inevitáveis auto-flagelações sociológicas. O dia passou a correr, e fiquei com a sensação de que poderia ter lá estado em Skype, poupando tempo e recursos, a mim e à comunidade.


Na realidade, a discussão para a qual fui desafiado pelo Hugo Olim, docente do Centro de Competência Artes e Humanidades, da Universidade da Madeira, foi tão só aflorada, ficando quase tudo por dizer e discutir. Precisava dum dia inteiro para expor em linha recta argumentos e factos em abundância, até impregnar a audiência de problemas, perplexidades, e perguntas à flor da língua. E teria precisado de mais um dia, ou dois, de 12 horas cada, para discutir com todos e cada um as implicações dos meus cenários catastróficos.


Estamos no fim de um tempo longo. O Ocidente esvai-se no horizonte de onde um Sol nascente outrora improvável e inaudito ganha forma, mas uma forma que não reconhecemos, que nem sequer, às vezes, conseguimos ver, ao contrário do que determina o equivocado apriorismo kantiano.


No fundo, eu nunca falo se não do que em cada momento ocupa o meu contínuo filosofar. E a questão da extinção tecnológica que precederá de forma abrupta e trágica a própria extinção de um grande ciclo histórico de civilização e barbárie humanas, é uma tema fascinante e grávido de consequências práticas sobre as quais é o tempo certo de pensar, sobretudo agora, que os modelos da educação e da certificação em massa parecem ter os dias contados. Eu contraponho, à educação burocrática de Bolonha, o regresso às escalas comunitárias dos saberes. Eu contraponho, à atomização dos saberes, dos certificados e das competências, a necessidade de comungarmos novas linguagens de síntese cognitiva, e estéticas partilháveis por todos. A atomização dos seres e dos fazeres foi a maior e mais sofisticada armadilha lançada pelo Capitalismo ao âmago das democracias. Os especialistas não passam hoje de peças isoladas e substituíveis da lógica cibernética da produtividade e da exploração. Só quando o desemprego destes acabar por se tornar dramaticamente presente, perceberemos plenamente o escândalo da manipulação e ilusão de que fomos vítimas.


Estamos atolados no mito da genialidade contemporânea. E o mais ridículo de tudo é que em vez de nos recordarmos das lições que o passado encerra, andamos entretidos a fabricar memórias do presente, e registos solipsistas para memória futura. Esta arrogante presunção da nossa essência “contemporânea” é uma espécie de veneno que tomamos sem saber que o é, e sem pensar nas consequências. O indivíduo de que estas sombras são manifesto, é uma praga. Temos que regressar à comunhão dos corpos e das almas, ou seja, temos que trabalhar para a criação de comunidades pós-contemporâneas, por contraposição ao ilusório progresso e presente perpétuo de que se tem feito a ideologia da contemporaneidade.


Precisamos de tempo para passear, conversar e meditar. Temos que reaprender o caminho paciente da clarificação das ideias, dos olhares e das sensações.


Uma proposta: transformar os museus e centros falidos da arte contemporânea, que são aos milhares, em mosteiros tecnológicos —não no sentido de acumulações insensatas de novidades tecnológicas, nem muito menos de palcos de exibicionismo científico, mas antes, como lugares da τέχνη (téchne), i.e. de recapitulação, conservação e co-evolução tecnológica, enquanto prática de transformação da matéria e do ser.


Copyright © 2010 by António Cerveira Pinto



NOTA

Este texto serviu de base a uma comunicação ao grupo de conferências subordinado ao tema “Memória do Efémero”, realizadas na Universidade da Madeira, Funchal, a 6 de Novembro de 2010. Oradores: António Cerveira Pinto, Idalina Sardinha, Isabel Santa Clara, Nuno Crespo, Paulo David.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

O fim da tecnologia

Bill Vorn - Hysterical Machines (robotic sculptures), 2006

Arte de base-cognitiva e o fim da tecnologia
por ANTÓNIO CERVEIRA PINTO

I

Há mais de uma década que me dedico a passear no interior das relações entre arte, conhecimento e novas tecnologias, observando e analisando os respectivos problemas e virtualidades. Podemos dizer, grosso modo, que o aparecimento da Internet e a sua rápida disseminação cultural à escala planetária marca o fim de uma certa maneira de fazer e ver a criação cultural, bem como o fim de certos rituais na recepção, consumo e partilha estéticas. O aspecto mais notório destas recentes práticas culturais é a sua quase extrema dependência da tecnologia e em particular dos computadores. Mas se uma crise energética sem precedentes tornasse a renovação destas tecnologias uma quimera, que sucederia à tecnoarte e a tudo o que fomos digitalizando nos últimos 25 anos?

A Pop Art foi, por assim dizer, a tomada de consciência tardia de um fenómeno que a precedeu e vastamente ultrapassou: a cultura de massas de índole tecnológica. Terão pois sido a banal Kodak do senhor Eastman, o relato radiofónico de Orson Welles, o cinema ciclópico de Hollywood, o automóvel privado e as autoestradas de Henry Ford e, em geral, a cultura da mobilidade estética permanente, mais do que a crise das Belas Artes, que melhor caracterizaram a chamada “cultura contemporânea” ao longo dos últimos 80 anos. Foi esta lógica de massificação e democratização que o advento simultâneo da Internet e da Globalização veio potenciar e empurrar para um novo patamar, ainda mais reprodutivo do que o anunciado por Walter Benjamin em 1936, só que desta vez sustentado por uma promessa inesperada: a de um inusitado tribalismo intelectual, social e estético, mediado pelo controlo individual e a partilha social das novas tecnologias de comunicação e representação interactivas.

Até 1984 a comunicação e a “arte na época da sua reprodutibilidade técnica” (Walter Benjamin), eram sobretudo fenómenos de broadcast, isto é, um emissor para uma miríade de receptores: livros, revistas, rádio, cinema, televisão e espectáculos ao vivo. Sem a invenção e sem a banalização do computador pessoal que ao longo de toda a década de 1980, e sobretudo na década de 1990, abriu a principal brecha no paradigma tecnológico que dominou os sistemas de representação simbólica ocidentais desde a impressão da Bíblia por Gutenberg (1450-55), estaríamos ainda submetidos aos mesmos paradigmas da recepção cognitiva e estética de há 500 anos. De repente, uma máquina electrónica permitia pela primeira vez escrever, desenhar, registar, reproduzir e jogar num ambiente de representações virtuais electrónicas, sustentado por sistemas invisíveis de algoritmos e programação digital. Ao contrário da inscrição directa ou analógica dos estímulos e dos signos sobre superfícies moles ou duras, passámos a usar interfaces de mediação digital, cuja finalidade é traduzir e instanciar tais inscrições em realidades puramente crípticas e electromagnéticas, seguindo labirintos de complexidade exponencialmente crescente, até configurar a actual metafísica tecnológica -- impenetrável e fundadora de um reincidente sentimento de inferioridade humana. Um autêntico Deus ex machina na forma vicariante dum electrodoméstico extraordinário, imiscuiu-se indelevelmente nas nossas vidas!

Sob condição de aprender a lidar com os respectivos teclados e pré-combinações de teclas (macros), ratos, joysticks e ambientes gráficos, o indivíduo podia começar a destacar-se do “homem-massa” dos séculos 19 e 20, descrito por Ortega y Gasset:
“La perfección misma con que el siglo XIX ha dado una organización a ciertos órdenes de la vida, es origen de que las masas beneficiarias no la consideren como organización, sino como naturaleza”. -- La Rebelión de las Masas (1926-1937).
A exigência de símbolos e de sentidos podia, enfim, derivar de um esforço pessoal, social e culturalmente partilhado, cognitivo, subjectivo e moral. No entanto, sem percorrer as curvas ascendentes cada vez mais acentuadas da aprendizagem do uso dos novos artefactos, o acesso a este promissor e cativante patamar de performance social, comunicativa, cognitiva, lúdica e estética seria pura e simplesmente vedado! Sem dominar os novos algoritmos e as novas interfaces não haveria recompensa sensorial. Não existiria sequer a possibilidade de consumir, ou partilhar. O desejo de gratificação imediata, satisfeito até aí numa sociedade consumista reduzida à dimensão Orwelliana de um público submisso à omnipresença dos poderes de emissão e disseminação simbólicas, seria então um objectivo inatingível. Este não foi, porém, um problema exclusivo do homem-massa mimado, incapaz de aceitar o mais pequeno obstáculo ao seu desejo infinito de novidade. O aparecimento dos computadores digitais, e sobretudo a vulgarização dos computadores pessoais, conduziu a alterações drásticas nas relações económicas e produtivas, com a consequente destruição criativa de inúmeros postos de trabalho e especificações técnicas.

A partir de 1994 deu-se uma segunda revolução tecnológica: os computadores começaram a falar entre si, estabelecendo redes locais e redes globais (internet, intranet, extranet), suportadas por protocolos de transmissões de dados, cada vez mais rápidas, a distâncias cada vez maiores, com conteúdos cada vez mais ricos: textos simples e formatados, imagens, vídeo, voz e aplicações diversas. Computadores, cabos de fibra óptica ou de cobre, transmissores e retransmissores hertzianos, satélites, redes locais sem fios, Global Positioning System (GPS), etc., convergiram e continuam a convergir para uma espécie de duplicação digital inteligente (genética), interactiva e em tempo real, do mundo. Mas se, por um lado, esta duplicação se encaminha para regimes de usabilidade e naturalização cada vez mais intuitivos e democráticos, ampliando por esta via o seu enorme potencial económico, por outro, cresce ainda mais depressa o fractal das suas dimensões conceptuais, cômputo-linguísticas, tecnológicas, científicas e culturais. E de entre estas dimensões, no que à expansão dos campos da criação artística se refere, o que se suspeitava que viesse a acontecer, aconteceu: a arte enquanto manifestação da subjectividade concreta, isto é, instanciação simbólica das formas culturais tecidas pelas sociedades humanas, aproximou-se, instrumental e ideologicamente, das lógicas cognitivas e linguísticas dos procedimentos de representação científica e tecnológica.

Cada vez mais a aparência da arte guarda no seu interior motores computacionais, sistemas operativos, meta-linguagens criativas e até material vivo, sem os quais a nova comunicação estética, digital, imaterial, variável, interactiva, orgânica e mutagénica, perde, não apenas actualidade, mas o próprio direito de existir.

A proximidade cultural entre arte e conhecimento é cada vez maior nas sociedades pós-contemporâneas, e é-o em grande medida por efeito do entrelaçamento cada vez mais íntimo entre as praxis artística, tecnológica, computacional e científica. Três bons exemplos desta convergência analítica, filosófica e estética são as chamadas artes generativa, robótica e biotecnológica. Numa aproximação sociológica a este fenómeno, diria porém que a arte de base cognitiva (knowledge-based art) se constitui às vezes por uma espécie de imperativo crítico, enquanto desvio simbólico e contraposição de lugar relativamente aos múltiplos imperialismos cognitivos que ameaçam a serenidade de uma consciência mais ampla do relativismo das representações por nós produzidas.



II

Nisto estávamos quando o novo século começou a impor à reflexão de todos nós um dado até há pouco invisível e por isso inesperado, da nossa própria ilusória configuração cultural. E o dado é este: o paradigma energético responsável pela forma actual da nossa civilização ultrapassou já metade da sua vida útil. Quer dizer, levámos 100 anos a consumir metade de todo o petróleo economicamente viável, disponível no planeta, pelo que seremos em breve forçados a abandonar esta fonte energética de primeira grandeza, acumulada pela Natureza ao longo de centenas ou mesmo milhares de milhões de anos. Muito provavelmente, entre 2030 e 2050, o actual regime energético em que toda a cultura científico-tecnológica e cultural assenta, sofrerá uma transfiguração sem precedentes, de que a presente corrida, algo atabalhoada, às chamadas energias alternativas, é já um seguro e dramático anúncio.

Imagine-se que seríamos forçados a abandonar este planeta daqui a duzentos ou trezentos anos.  Ou que este cenário dantesco (pois, além do transtorno de uma vida extra-terrestre, suporia a eliminação ou o abandono de mais de 9 décimos da humanidade), seria antecipado e abruptamente substituído por outro, menos radical , mas não menos apocalíptico: o do retorno aos níveis de vida e produtividade médios da era pré-industrial. Quer dizer, a  uma era sem utopia, sem automóveis, sem comboios, sem aviões, sem congelados, sem pronto-a-vestir, sem telemóveis, sem iPods, sem computadores, sem televisão, sem electricidade, com as actuais manchas urbanas e suburbanas reduzidas a sucatas infinitamente tóxicas, inóspitas e criminais. Inverosímil?  Pelo contrário, altamente provável!

Só há menos de duzentos anos usamos intensamente o carvão, o petróleo e o gás natural. Só desde meados do século 19, com o uso do ferro forjado e do aço, e sobretudo pela acção extraordinária da multitude de máquinas movidas a vapor, a explosão e a electricidade, foi possível passar de uma era, de quase dois mil anos, em que o rendimento médio anual “per capita”, na Europa Ocidental, passou dos 576 dólares americanos (de 1990), no ano 1 do nosso calendário, até aos 1.572 dólares, no ano 1850, para um século, o século 20, em que os rendimentos subiram mais de dez vezes.

Ainda que relativa e muito mal distribuída, a nova riqueza proporcionada pela disponibilidade de fontes energéticas abundantes, baratas e de alto rendimento, pela maquinaria e pelas tecnologias cada vez mais produtivas e sofisticadas, bem como pela exploração intensa do trabalho humano, permitiu que os rendimentos médios anuais “per capita” chegassem na Europa, em 2003, aos 19.912 US Dólares. Ou seja, 12,6 vezes mais do que a média dos rendimentos “per capita” na Europa de 1850, e 25 vezes mais do que em 1500. Imagine-se o que seria viver, conhecidos estes dados, numa era pós-carbónica, com rendimentos dez ou vinte vezes inferiores aos actuais. Hoje, quando um país, um continente, ou o mundo global deixa de crescer durante três trimestres consecutivos, declara-se oficialmente a “recessão”, o pânico mediático instala-se e tudo parece caminhar para o colapso: empresas a fechar, desemprego, aumento da criminalidade, suicídios. Imagine-se então o que ocorreria se regredíssemos de uma época de crescimento positivo sistemático para um outra em que a regra passasse a ser, mais do que a da estagnação económica, a do decréscimo imparável da produção e dos rendimentos.

Este cenário, que não está tão longe quanto possa parecer, teria implicações imediatas na nossa percepção do valor das artes, bem como na sua inevitável degradação em termos tecnológicos. Muito antes de chegarmos ao decisivo momento da implosão civilizacional, experimentaremos toda uma série, cada vez mais frequente e intensa, de fenómenos indicadores de que o paradigma energético que regula a nossa vida e a nossa cultura se aproxima inexoravelmente do fim.

As guerras que actualmente se arrastam no Médio Oriente (Iraque, Afeganistão, Palestina, Líbano) e em África (Quénia, Eritreia, Chade, República Centro Africana, Nigéria, etc.) são já o resultado e o figurino de conflitos que tendem a multiplicar-se e não a diminuir, em torno de recursos estratégicos, tais como o petróleo, o gás natural, os cereais e a água. O mundo consumiu em 2003 cerca de 80 milhões de barris de crude por dia. Os Estados Unidos consumiram 25% deste petróleo, tendo gasto 2/3 desta quantidade no sector de transportes. A crise económica actual nos Estados Unidos decorre, aliás, de um sobre-endividamento insustentável, fruto da sua extrema dependência das energias carbónicas (sobretudo petróleo e gás natural) e ainda da exportação de boa parte da sua capacidade produtiva para países terceiros com mão de obra e custos de contexto muito inferiores.

Por causa dos inevitáveis e nefastos efeitos da sua imparável dívida, os Estados Unidos correm o sério risco de perder o seu estatuto entre as demais nações e estados, e caminhar para um perigoso declínio. Que efeitos poderá uma tal evolução negativa induzir nos elevados níveis de performance tecnológica e cultural daquele que tem sido nos últimos 50 anos o principal criador de modelos de criação, produção, circulação e consumos artísticos? Que ocorrerá se empresas da dimensão da Google acabarem por ser engolidas por um qualquer vórtice dos violentos tufões financeiros que a ritmo cada vez mais assustador “atacam” os Estados Unidos? Que acontecerá à produção mundial de micro processadores se houver uma catástrofe natural ou bélica na Ilha Formosa, por exemplo, na sequência de uma não aceitação, pelos Estados Unidos, da reunificação da China? E que sucederá na Europa e demais continentes, cujas relações com a potência americana, seja na qualidade de fornecedores, seja na qualidade de consumidores, são vitais, no momento em que a decadência económica dos EUA se revelar como um facto indiscutível e irreversível? Se tal vier a ocorrer, como evoluirá a nossa tão estreita como inconsciente dependência do bem-estar económico, científico e tecnológico? A actual recessão mundial, que durará porventura todo o ano de 2008 e de 2009, ensinar-nos-à muitos factos novos sobre o futuro imediato.

A capacidade de renovação tecnológica de que tão criticamente dependemos parece estar seriamente ameaçada. Pense-se apenas no que ocorrerá no momento em que não for mais possível substituir os nossos computadores pessoais, ou os nossos automóveis, iPods, telemóveis, etc., por máquinas novas e mais potentes. Quanto tempo irá durar o meu carro? Por quanto tempo mais poderei manter o meu laptop operacional? Que sucederá ao mundo digital actualmente mantido nos milhares de servidores por esse mundo fora? Não foi lá que depositámos quase tudo o que temos? Desde as nossas economias às nossas conversas de amor?

30 janeiro 2008 (revisto em 7 dez 2011)
Copyright © 2008/ 2011 by António Cerveira Pinto