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terça-feira, 5 de abril de 2016

Casbá de Belém



A prepotência partidária não tem cor. É prepotência. Ponto!


Um administrador nomeado por um Governo deve pôr de imediato o seu lugar à disposição quando o Governo muda. O CCB não é uma direção-geral, não é um instituto público. Não é um órgão administrativo que possa ser dirigido por qualquer gestor desde que se ache bom gestor. É um lugar de confiança política, porque concretiza, com ampla liberdade, uma política. Para mim, pôr o lugar à disposição é uma clara exigência ética. Sei que neste ponto, como nos que refiro acima, a minha opinião vai contra o que, talvez maioritariamente, as pessoas pensam. Por isso a dou. 
Miguel Lobo Antunes, in "Não há nada a mudar no modelo do CCB". Público, 4/4/2016

Ponto número 1: a Fundação CCB não é uma verdadeira fundação, pois depende sobretudo do Estado (único fundador) e do governo de turno, ou seja, não passa, institucional e politicamente, de um aborto jurídico-partidário, e de um subterfúgio legal ao funcionamento decente de uma res publica.

Ponto número 2: se o Presidente deste aborto burocrático do Estado deve demitir-se sempre que muda o governo, pergunto: trata-se esta de uma regra única, ou aplica-se a todos os outros domínios da coisa pública, incluindo a Caixa Geral de Depósitos e a sua Culturgest? É que a pública Caixa não só se encontra numa situação em tudo similar à do CCB, como recorre pesadamente aos bolsos dos contribuintes. Muito mais do que o CCB!!!

Eu aprecio a tomada de posição frontal de Miguel Lobo Antunes. Mas apreciaria ainda mais que debatesse comigo, ou com quem entender, a sua tese. Pois acho que não tem a mínima sustentação.


POST SCRIPTUM

O precariado de Serralves — à atenção da esquerda à esquerda do PS

Serralves movida a falsos recibos verdes 
Precários Inflexíveis. Março 3, 2016 - Recibos Verdes 
Esta semana os Precários tiveram acesso a um contrato que a empresa EGOR faz aos promotores que trabalham em Serralves. Este contrato é claro: é uma “oferta de trabalho”, tem uma função definida com uma descrição pormenorizada, define o local de trabalho e a remuneração destes trabalhadores, define o fardamento, no entanto, as pessoas estão em regime de prestação de serviços. São falsos recibos verdes. Todas estas pessoas deviam ter um contrato de trabalho. 
Repare-se: é impossível Serralves trabalhar sem promotores, porque, como o contrato bem explicita, fazem a receção de visitantes, a venda de bilhetes, o encaminhamento de visitantes, tarefas sem as quais Serralves não funciona. 
A situação é ilegal e, por isso, os Precários já enviaram uma notificação à Autoridade para as Condições do Trabalho para que investigue esta questão com urgência.
Nas últimas semanas temos descoberto a presença de falsos recibos verdes em muitas salas de espetáculo: CCB, Teatro Nacional de São João, Teatro Nacional de S. Carlos e Teatro Camões. Agora junta-se à lista Serralves. 
Serralves 
Ganhem Vergonha 
De acordo com relatos de antigos e actuais trabalhadores de Serralves recolhidos pela Plataforma Ganhem Vergonha, diversos postos permanentes da Fundação são ocupados ilegalmente ou, no mínimo, de forma dissimulada. Os falsos prestadores de serviços são apenas uma parcela de uma vasta força de mão-de-obra — composta por jovens licenciados e mestres, com idades entre os 22 e os 32 anos — indispensável para o funcionamento do museu. Têm vínculos de 25 a 40 horas e recebem cerca des 550 euros mensais, somada a remuneração ao subsídio de alimentação. 
(...) 
Todos — quer os contratados a termo incerto quer os que passam recibos verdes — têm objectivos mensais relativos à angariação de Amigos de Serralves. Quem trabalha em postos comerciais (livraria, loja e balcão) tem ainda objetivos de vendas, definidos com metas elevadas e pouco transparentes, que são atingidas três ou quatro vezes por ano. Como prémio, recebem vouchers de 25 euros para consumo interno e vouchers de 50 euros para serviços da Sonae Sierra , atribuídos pela Egor. A lei, no entanto, diz que a retribuição pelo trabalho prestado (incluindo prémios) deve ser satisfeita em dinheiro (ou de forma equivalente que possa ser transformada em dinheiro, como por exemplo em cheque) e não em papel, que obriga o trabalhador a consumir bens em determinado operador ou empresa, sem livre escolha.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Joana Vasconcelos - Marylin Inox

Joana Vasconcelos, a pós-vanguarda no feminino
por ANTÓNIO CERVEIRA PINTO


Joana Vasconcelos—Marylin, Museu Berardo, CCB ©Foto: Filipa Figueira, 2010.
“Marilyn”, da artista portuguesa Joana Vasconcelos (n. 1971), foi leiloada hoje na casa Christie’s por 505.250 libras (573.964 euros). No leilão de arte do pós-guerra e contemporânea, onde se encontram obras de Gilbert & George, Andy Warhol ou Roy Lichtenstein, a base de licitação da peça, um par de sapatos gigantes realizados com panelas e tampas, era de 100 mil a 150 mil libras (115 mil a 172 mil euros). — Público online.

Lembro-me de ter visto pela primeira vez um dos sapatos de “Marylin”, feito com tachos inox, numa feira comercial dedicada ao imobiliário e soluções para arquitectura, jardins e intervenção urbana. O grande sapato reluzente de ponta alta surgiu-me de chofre, sem passar sequer pela minha cabeça que haveria por ali escultura, e muito menos uma obra de Joana Vasconcelos. Mas era do que se tratava. Ali estava, irresistível a quem rodeava o enorme sapato e por ali ficava alguns minutos sorrindo e voltando para trás e para a frente, tentando resolver o puzzle. Parecia um sapato de diamantes. Mas não era. Era, sim, um objecto gigante feito com mais de uma centena de tachos inox soldados uns aos outros. Disse para comigo: isto deve ser mais uma partida da Joana. E era!


Joana Vasconcelos foi durante muito tempo, e porventura ainda será, uma artista menos considerada entre as vanguardas de sucedâneo que abundavam na arte portuguesa do final do século passado. Recordo ainda, e agora posso partilhar o momento publicamente, das pressões que em 1999 sofri para não inclui-la na Bienal da Maia que então comissariei na ilusão de poder transformar aquele evento suburbano numa realização periódica com dimensão internacional. Não vou entrar em pormenores, mas no mínimo, dizia-se que a personagem era insistente e trucidante, e a obra, no mínimo, Kitsch (como se este último epíteto pudesse então ser um mau presságio, ou uma nota negativa!)


Eu procurava vislumbrar quais os valores mais promissores da jovem arte portuguesa (e chinesa de Xangai!) naquele final do trágico século 20. Fui abrangente e extensivo, insistindo numa espécie de pedagogia inclusiva e aberta, num terreno que sabia estar já muito minado por jogos de poder, de controlo e de exclusão competitiva. A lista de participantes foi quase exaustiva no que então me pareceram ser hipóteses em aberto que mereciam conviver numa mesma exposição e dar lugar à ideia de que existia uma nova geração de artistas dignos da atenção pública, e da atenção das galerias de arte, dos museus e das revistas da especialidade, mas também das instituições públicas. 

Os anos 90 tiveram pois duas exposições —uma a começar a década, e outra a fechá-la— onde tive a oportunidade de sugerir um arejamento da percepção portuguesa do seu potencial plástico. Nomes como Miguel Palma, Carlos Vidal, João Onofre, João Tabarra, Augusto Alves da Silva, Filipa César, Alexandre Estrela, Francisco Tropa, Jorge Queiroz, Noé Sendas, Rui Toscano, Rui Calçada Bastos e Joana Vasconcelos, entre outros e outras, foram escolhas assumidas para a BM99, quando ainda pesava (ou ainda pesa) uma espécie de monopólio dos oportunistas Anos 80 sobre os centros nevrálgicos do poder das artes em Portugal. O tempo deu razão às escolhas que então fiz e que outros observadores atentos de então também partilhavam, mais ou menos em surdina!


O que porventura distingue a obra de Joana Vasconcelos, e incomoda muita gente, é a sua flagrante frontalidade plástica, franqueza feminina e genuíno espírito do lugar. Tal como Paula Rego, Joana Vasconcelos sabe lidar com o barro da espécie, sem maternalismo, nem sub-capas finas de conceptualismo requentado, nem “liricoidismo” literário (a expressão feliz é de Joaquim Manuel Magalhães) de nenhuma espécie. A bilros o que é de bilros, e que não se confundam com kilts!


E no entanto nada há de atávico ou provinciano na obra de Joana Vasconcelos, como obviamente há, por exemplo, na pintura de Graça Morais. O delírio humorístico e arguto das suas confecções e do seu bricolage é profundamente urbano e sofisticado naquela acepção genuinamente Pop que impregna os percursos de Louise Bourgeois, Paula Rego, Andy Warhol, Jeff Koons, Paul McCarthy e tantos outros e outras. Há uma truculência genial nos temas, nas escalas, nos materiais e nas anedotas da sua extravagante casa de bonecas neurasténicas (ver esta reportagem). E é precisamente esta franqueza narrativa e construtiva que falta em muitos outros artistas cujo potencial não consegue ultrapassar o limiar perigoso da verdadeira liberdade criativa. Joana não é, de facto, nem uma artista epigonal, nem um sucedâneo sem cafeína e politicamente correcto —”para inglês ver”— da última capa da Artforum (ainda existe?) Apetece-me voltar a dar um passeio pelo seu trabalho.

Copyright © 2010 by António Cerveira Pinto